sábado, 26 de maio de 2018

A menina quer dançar?


Apetece dizer:
- A menina quer dançar?
Eles dançavam de chapeirão, de bota cardada e calças à boca-de-sino. Elas de saia a rasar o chão, o que levava alguns homens a confessar que:

"Toda a vida me agradou
Moça de saia rasteira,
Porque pranta o pé no chão
Devagar, não faz poeira."[1]

No descanso, dava para eles enrolarem um paivante e tirar umas quantas fumaças, que isso de ser homem dá para fumar. E é sempre bom levar o varapau, que o diabo às vezes assume a forma de maltês. Também dava para elas comporem as saias à cinta, aperaltar os colares e compor os carrapitos.
Como vêem existia uma grande diferença de género.
Eu tenho uma certa pena das moças, porque os aprestos dos homens deviam ser um bocado incómodos, a menos que eles fossem ágeis e cuidadosos. De contrário, dançar de botifarras devia dar para pregar cada pisadela que fervia. Uma botas alentejanas que se prezem não são propriamente uns sapatos à Fred Astaire.
Também o chapeirão devia ser uma grande chatice, a menos que a moça fosse mais baixa.
Se a moça fosse mais alta, o chapeirão batia-lhe no peito e mantinha as distâncias, o que convenhamos era um grandessíssimo inconveniente para o homem.
Se a moça fosse da mesma altura, o chapeirão devia estar sempre a embirrrar com a cabeça dela, a menos que dançassem de cabecinha ao lado, correndo o risco de dar um jeito ao pescoço. E o dinheiro gasto na romaria já não dava para ir ao endireita.
[1] -  Thomaz Pires, António. Cantos Populares Portugueses. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Roda: Amor - O ramo mora no aro


Fotografia de Jorge Chaves (jchaves@orange.fr)

O nosso amigo Jorge Chaves é um fotógrafo profissional que sente e por isso sabe registar magistralmente, aquilo que de belo tem o Alentejo. Uma fotografia sua, extremamente bela, de duas rodas radiadas, pertencentes a carros de tracção animal, está na origem do presente ensaio etnográfico.
A roda será porventura o maior invento de todos os tempos. O homem terá começado por arrastar pedras e árvores sobre troncos de árvores, para mais tarde o começar a fazer sobre estrados assentes em rolos de madeira. O transporte de materiais tornou-se então mais fácil. Hoje sabemos que o atrito de rolamento é inferior ao atrito de escorregamento, mas em termos práticos, isso foi descoberto há milhares de anos.
Depois dessa primeira descoberta, os rolos terão sofrido nas extremidades, a aplicação de discos toscos, percursores das rodas, servindo os rolos de eixos. Quer os eixos quer as rodas sofriam movimento de rotação e movimento de translação. Este último era um inconveniente, por que o eixo se deslocava ao longo do estrado, obrigando a ajustes sucessivos. Mais tarde, o eixo é preso ao estrado e as rodas passam a girar livremente, exteriormente ao estrado. Nos modelos primitivos, as rodas eram baixas e os estrados próximos do chão. A necessidade de elevar o estrado em relação ao solo, levou ao alteamento das rodas, que eram maciças e grossas devido ao peso dos materiais transportados. E assim o foram durante séculos, até que para se tornarem mais leves foram abertos nas rodas, dois óculos arredondados. Mais tarde, a roda maciça viria a ser aberta em partes mais largas, o que está na origem da roda radiada, na qual raios de madeira unem um aro periférico ao centro, apoiado na cabeça saliente do eixo. Mais tarde, o aro de madeira periférico viria a ser protegido por um aro de ferro. A roda transmite de maneira amplificada para o eixo de rotação, qualquer força aplicada no aro periférico, reduzindo a transmissão da velocidade. Analogamente, a roda transmite de maneira reduzida para o aro periférico, qualquer força aplicada no seu eixo de rotação, amplificando a transmissão da velocidade.
Os carros de tracção animal alentejanos, puxados a muares ou a cavalos, dos mais leves e andarilhos do nosso país, movem-se facilmente com rodas radiadas com diâmetros de 1,80 m a 1, 50 m.
Na literatura oral são múltiplas as referências, à roda. São assim conhecidas as seguintes adivinhas, cuja solução é fornecida no final, entre parêntesis:
- Qual é coisa, qual é ela, que é redonda como o Sol, tem mais raios do que uma trovoada e anda sempre aos pares? (A roda radiada);
- Qual é coisa, qual é ela, que a roda disse para o carro? (Vamos dar uma voltinha.);
- Qual é a roda, qual é ela que quando um carro está a fazer a curva para a direita, roda menos? (A roda suplente).
São igualmente conhecidos os seguintes provérbios sobre rodas:
- Uma roda toca a outra.
- A vida é uma roda, tanto anda como desanda.
- A roda da fortuna tanto anda como desanda.
- A roda da fortuna anda mais que a do moinho.
- A roda da fortuna nunca é uma.
- Cada um dança, conforme a roda onde está.
- A pior roda é a que mais chia.
- Rodas e advogados precisam de ser untados.
Há de resto, expressões populares portuguesas, em que figura o termo “roda”:
- Roda! – Deixa-me!;
- À roda - À volta;
- Roda da fortuna – Frase que significa que a fortuna não pára;
- Roda dos Expostos – Espécie de armário giratório em que se expunham as crianças que se queriam enjeitar;
- Roda do tempo – A sucessão dos anos da vida.
Terminamos com duas quadras populares recolhidas por António Tomaz Pires (1850-1913) e coligidas nos seus ”Cantos Populares Portugueses” (1902-1910), onde aparece o termo “roda”:

“Já corri o mar à roda
C’uma fita larga e estreita,
Para dar um nó redondo
Nessa cintura bem feita.”

“Senhores que estão à roda,
Vossês hão de perdoar,
Que esta menina picou-me
E eu quero-me despicar.”

terça-feira, 22 de maio de 2018

Jogos Florais: BONECOS DE ESTREMOZ - PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE



CONVITE

Tenho o grato prazer de convidar V.ª Ex.ª a honrar-nos com a sua presença na cerimónia de entrega de prémios aos galardoados nos Jogos Florais referidos em epígrafe, a ter lugar no Auditório da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel, no próximo sábado, dia 26 de Maio de 2018, a partir das 11 h.
O convite é extensivo à participação no almoço de confraternização entre os envolvidos nos Jogos Florais, o qual terá lugar a partir das 13 h 30 min no Restaurante Cadeia Quinhentista, no Centro Histórico de Estremoz.
A participação no almoço custa 22 € e carece de inscrição, a qual deve ser feita até à próxima 5ª feira, dia 24 de Maio, através do email:  ejornaldeestremoz@gmail.com ou do telefone 937 274 775 (Hernâni Matos).

Ivone Carapeto
Directora do Jornal E

VENCEDORES DOS JOGOS FLORAIS

O Júri constituído pelos professores António Simões, Fátima Crujo e Francisca de Matos, após apreciar os trabalhos submetidos a concurso, deliberou atribuir os seguintes prémios:
Quadra
1.º Prémio – TROVADOR (Ernesto Lopes Nunes – Espadaneira).
2.º Prémio – ESTREMOCENSE (Ernesto António da Silva Maciel – Coimbra).
3.º Prémio – VICENTE (Aníbal dos Santos Quaresma – Cova da Piedade).
Poesia Obrigada a Mote
1.º Prémio – CARLOS MIGUEL (Joaquim da Conceição Barão Rato – Beja).
2.º Prémio – ZÉ-SIM (Domingos Freire Cardoso – Ílhavo).
3.º Prémio – TONHO (António Carlos Caixa de Oliveira – Estremoz).
Menção Honrosa – JOÃO MARTA (António Carlos Caixa de Oliveira – Estremoz).
Poesia Livre
1.º Prémio – BONECOS DE ESTREMOZ (Fernando Máximo – Avis).
2.º Prémio – ALDEÃO PASMADO (Joaquim da Conceição Barão Rato – Beja).
3.º Prémio – PRIMAVERA (Fernando Máximo – Avis).
Menção Honrosa -  LUÍS ESPANCA (Vítor Manuel Alves Fernandes - Corroios).

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Matar a sede no Alentejo


Aguadeira da ceifa. Capa do nº 21, de Janeiro de 1949, da revista "menina e
moça", editada pela Mocidade Portuguesa Feminina.

                                                                                   À minha filha Catarina

INTRODUÇÃO
O corpo humano de um adulto é composto por 60% de água, a qual está presente em todos os tecidos e desempenha múltiplos papéis: dissolve todos os nutrientes e transporta-os a todas as células, assim como às toxinas que o organismo necessita de eliminar. A água regula ainda a temperatura corporal através da produção de suor.
Através da transpiração, respiração, urina e fezes, perdemos diariamente cerca de 2,5 litros de água ou mesmo mais, se a temperatura for muito elevada e/ou o esforço físico for intenso. Esta perda deve ser reposta.
As necessidades de água do ser humano dependem das perdas e o bom funcionamento do nosso organismo passa pela água que consumimos. Através dos alimentos obtemos cerca de metade da água necessária, o resto deve ser ingerido, bebendo pelo menos, 1,5 litros de água por dia.

SEDES DE OUTRORA
Noutros tempos, nos campos do Alentejo, bebia-se água de algumas ribeiras, assim como de nascentes e poços. Quem andava nas fainas agro-pastoris, bebia normalmente água por um coxo, feito de cortiça.
Fainas violentas como as ceifas, exigiam que houvesse distribuição regular de água, o que era feito, geralmente por uma aguadeira da ceifa, transportando um cântaro de barro e um coxo, por onde se bebia à vez.
Os pastores na sua vida de nómadas conheciam bem a localização das nascentes e poços, onde matar a sede.
Dos poços a água era tirada com caldeiros de zinco, embora em sua substituição se vissem muitas vezes, à beira dos poços, grandes chocalhos com a mesma função. Lá diz o cancioneiro:

“O' lá Cabeço de Vide,
Toda coberta de neve,
Terra do neto da bruxa,
Quem não traz chocalho não bebe.” [1]

Nas aldeias e vilas, as mulheres iam às fontes, encher os cântaros de barro, que transportavam depois à cabeça, equilibrados miraculosamente pela sogra, que a maioria das vezes não passaria duma rodilha enrolada em forma de anel.
Nas cidades, existiam aguadeiros, proprietários de carro com grade para transporte de cântaros, puxados por muar ou burro. Igualmente os havia com recursos mais elementares. Havia quem transportasse os cântaros em cangalhas de madeira assentes no lombo das bestas. Havia também aqueles que nem besta tinham e efectuavam o transporte dos cântaros em carros de mão, que eles próprios empurravam. Os cântaros usados, eram geralmente em zinco, com tampa, não só para não partirem, como para não entornarem. Cada aguadeiro tinha, de resto, a sua própria rede de clientes certos, que eram abastecidos a partir da fonte que frequentava.

SEDES DE HOJE
Hoje é impensável e desaconselhável beber água de ribeiros e de poços, já que os aquíferos estão contaminados por adubos químicos e pesticidas, quando não por águas residuais, domésticas ou industriais. O mesmo relativamente à água das fontes das nossas vilas e aldeias.
Hoje temos que beber água da rede, muitas vezes com sabor a cloro ou então, água engarrafada. Esse o preço do progresso. Um preço que poderia ter sido evitado, praticando uma agricultura biológica, em equilíbrio com os agroecossistemas, assim como um tratamento e convenientemente encaminhamento das águas residuais, que em muitos casos ainda não é feito. Até quando?

BIBLIOGRAFIA
[1] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A NOITE MAIS LONGA DE TODAS NOITES



A NOITE MAIS LONGA DE TODAS NOITES é o título da mais recente obra de Helena Pato, a lançar no dia 23 de Maio pelas dezoito horas e trinta minutos, no Espaço Biblioteca Europa (antigo Cinema Europa), no Bairro de Campo de Ourique, em Lisboa. A apresentação está a cargo da Historiadora Irene Pimentel e do Escritor Mário de Carvalho.
A obra é constituída por um volume de capa mole, com grafismo de Raquel Ferreira sobre fotografia da Autora num comício em 1974. Formato 16 cm x 23 cm, com 260 páginas e 16 fotografias. A edição é da Colibri e tem o preço de lançamento de 15 euros, sendo posteriormente comercializada nas livrarias ao mesmo preço.
A autora
Helena Pato nasceu em Mamarrosa (Aveiro), em 1939. Militou activamente na Resistência, durante as duas décadas que antecederam a Revolução, tendo sido presa e detida várias vezes pela polícia política. Acompanhou o marido no exílio ate ao seu falecimento, em 1965. Em 1967 esteve presa seis meses na Cadeia de Caxias, sempre em regime de isolamento. Dirigente estudantil (1958 a 1962); dirigente política da CDE (1969 a 1970); fundadora do MDM (1969) e sua dirigente (1969 a 1971). Integrou o núcleo de professores que, durante o fascismo, dirigiu o movimento associativo docente (1971 a 1974). Fundadora dos sindicatos de professores (1974), foi dirigente do SPGL nos seus primeiros anos.
Licenciada em Matemática, a sua vida profissional foi dedicada ao ensino de crianças e de jovens e à formação docente: leccionou durante 36 anos no ensino público e publicou livros e estudos, no âmbito da Pedagogia e da Didáctica da Matemática. Coordenou Suplementos de Ciência e de Educação em jornais diários.
Dirigente do “Movimento Cívico Não Apaguem a Mem6ria” (NAM), desde 2008; presidente do NAM de 2012 a 2014. Em 2013 criou no facebook e coordena, desde então, a página “Antifascistas da Resistência” e o grupo “Fascismo Nunca Mais”. Publicou dois livros de mem6rias do fascismo: “Saudação, Flausinas, Moedas e Simones” (2005, Editora Campo das Letras) e “Já uma Estrela se Levanta” (2011, Editora Tágide).
A obra
Trata-se de uma colectânea de 60 estórias vividas pela autora durante o fascismo, algumas delas já publicadas e às quais acrescentou referências históricas, sociais e políticas, que as contextualizam.
No Prefácio diz-nos Maria Teresa Horta: “Obra de uma precisão exemplar e simultaneamente de uma beleza límpida no seu veio narrativo, enquanto tessitura de recordações assumidamente pessoais embora arreigadamente políticas (...). A Noite Mais Longa de Todas as Noites é pois uma obra tecida com o fio do júbilo dos ideais, mas igualmente com os acontecimentos vividos no nosso país, então asfixiado por uma longa, cruel e impiedosa ditadura. Sendo tudo isto elaborado com uma vivacidade e uma argúcia que nos leva a lê-la até chegar ao fim, para logo desejar tornar ao seu começo”.
Num dos Posfácios confessa Luís Farinha: “Nunca vi as comemorações do 1.º de Maio no Rossio de Lisboa, em tempo de clandestinidade, tão intensamente descritas (e vividas) como no relato de Helena sobre esse dia de 1962”.
No outro Posfáscio, observa Jorge Sampaio: “As estórias que Helena Pato vai contando, valem, primeiro, pela valência pessoal de sabor autobiográfico, de grande despojamento, sobriedade e elegância, mesmo se tal não é o principal propósito, e, depois, por serem o retrato de uma época de "resistência contra a ditadura"”.

Helena Pato, a autora.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Os churriões



ESTREMOZ – Mercado de Sábado em meados do século XX. Foto de Rogério Carvalho (1915-1988). Passeio do Rossio frente ao Hospital. Um camponês de pelico e safões prepara-se para beber uma aguardente, que a viúva, proprietária da taberna-churrião se prepara para lhe servir. À esquerda, o carro aberto dum vendedor de cereais. Ao fundo, a Igreja dos Congregados, antes do completamento da construção.
Nesta época, por ocasião das tradicionais Festas de Setembro, este passeio ficava repleto destes carros, propriedade de quem vinha às Festas. Pelos arreios dos animais, pelos assentos, pelas cortinas e pelos enfeites dos carros, se conhecia o poder económico de quem neles se fazia transportar.


ESTREMOZ – Feira de Santiago, 25 de Agosto de 1947. Fotografia tirada no Rossio Marquês de Pombal, frente à Casa da Família Reynolds. O fotógrafo foi Manuel Gato, um dos sócios da extinta firma de electrodomésticos Quadrado e Gato, situada no Rossio Marquês de Pombal, junto ao Café Águias d'Ouro. Trata-se de um grupo de camponeses petiscando num típico churrião, que funcionava como taberna ambulante, onde se servia vinho, aguardente, pão, queijo e carnes cheias. Era um local de amena cavaqueira e de convívio, onde por vezes se defrontavam ao desafio, poetas populares como os lendários Hermínio Babau e Jaime da Manta Branca.
Consta-se que certa vez, o primeiro, versejador de vastos recursos e crítico do Estado Novo, se terá saído com esta cantiga:
 
“Lá em Santa Comba Dão,
Nos foros de Jesus,
Para dar cabo de uma Nação,
Deu uma mãe um filho à luz.”

Esta tirada foi aproveitada por dois indivíduos que não o gramavam e o foram denunciar à Guarda Nacional Republicana, cujo posto se situava na Igreja dos Congregados. Após a denúncia e chegados à taberna-churrião, os guardas deram ordem ao Hermínio de os acompanhar até ao posto, o mesmo se passando relativamente aos dois bufos. Uma vez no posto, os guardas disseram-lhe que era acusado de estar a dizer versos contra o Governo, ao que ele respondeu que não senhor, que não era verdade, desafiando então os denunciantes a repetirem os versos que ele tinha dito. Como eles não foram capazes de o fazer, o Hermínio declarou então aos guardas:
- Meus senhores, os versos foram estes:

Acabaram as revoluções.
A situação melhorou.
Portugal é um brinquinho
Desde que este Governo entrou.”

Os acusadores, bem clamaram que os versos não eram aqueles, mas como não foram capazes de apresentar versos contrários como prova, foram acusados pelos próprios guardas de terem prestado falso testemunho e foram eles que acabaram por passar a noite no posto. Em termos de rifonário popular, chama-se a isso “Ir buscar lã e sair tosquiado”. Quando ao Hermínio Babau voltou à taberna-churrião para continuar a função.

Era em churriões puxados por mulas, que os camponeses das freguesias rurais se dirigiam à cidade para vender e para comprar ou simplesmente para tratar de assuntos que só na cidade podiam ser tratados.
Era também em churriões destes que se ia às Festas de S. Mateus a Elvas.

Churrão junto ao Aqueduto – Elvas.Bilhete-postal ilustrado de meados do séc. XX. Edição da Livraria e Papelaria Rego - Elvas.

Era uma romaria que durava dias, entre o ir e o voltar. E ali os romeiros estacionavam os churriões por zonas, conforme a zona de proveniência. Digam-me lá, se o alentejano é ou não é um tipo organizado?

Aspecto do Arraial da Feira de S. Mateus – Elvas. Bilhete-postal ilustrado do início do séc. XX. Edição da Tabacaria Costa – Lisboa.

Era na altura em que os ganhões que mourejavam nas herdades, iam aquelas Festas gastar a maçaroca amealhada a custo. Lá diz uma quadra do rico cancioneiro popular alentejano:

”Ó feira de S. Matheus,
Onde as ganharias vão
A gastarem o dinheiro
Da temporada do v’rão.”

Eram outros os tempos…

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Azulejos da Estação da CP de Estremoz

Mercado de sábado: os barros. Ao fundo e ao centro, o Castelo de Estremoz.
À direita, os campanários da extinta Igreja de Santo André.

A arte do azulejo herdada dos árabes, enraizou-se entre nós no século XVI, fruto da prosperidade económica resultante da expansão marítima portuguesa, que permitiu a construção de igrejas e palácios. Estes foram decorados interiormente com cenas sagradas ou profanas, que por vezes também ornamentam alguns jardins de palácios.
No século XX, o azulejo sai definitivamente para rua e passa a decorar fachadas de residências, edifícios públicos, lojas, estações e mercados. Foi o que aconteceu com a Estação da CP em Estremoz, decorada com painéis azulejares policromáticos da autoria de Alves de Sá (1), datados de 1940 e fabricados na Fábrica de Cerâmica da Viúva Lamego, em Lisboa. Trata-se de quadros de grande qualidade artística que num estilo muito barroco, contam o dia-a-dia da cidade de Estremoz e registam as fainas agro-pastoris no segundo quartel do século XX. As cenas alternam com vasos carregados de flores e frutos, motivos que também figuram na cercadura, a qual é encimada por um cesto repleto daquelas espécies. São quadros que nos permitem uma viagem espaço-temporal à época da Exposição do Mundo Português, já que constituem um repositório dos usos e costumes locais na 1ª metade do século XX. Para muitos de nós, estes azulejos, conjuntamente com os do Palácio Tocha e da Câmara Municipal de Estremoz, foram o nosso primeiro livro de banda desenhada.
Dado que alguns painéis foram vandalizados, não seria possível promover a sua recuperação a partir de fotografias existentes ou dos estudos do artista que deram origem aos painéis? Aqui fica o alvitre a quem de direito. Seria ouro sobre azul, já que a autarquia pretende instalar um espaço museológico ferroviário, no antigo edifício da estação da CP de Estremoz.



(1) - João Alves de Sá (1878-1972), que exerceu episodicamente a magistratura, foi como aguarelista, discípulo de Manuel de Macedo (1839-1915), tendo sido agraciado com elevadas distinções como a medalha de honra em aguarela da Sociedade Nacional de Belas Artes e o 1º prémio Roque Gameiro (1947), do Secretariado Nacional de Informação. Encontra-se representado no Museu do Chiado e no Museu da Cidade (Lisboa), na Casa-Museu dos Patudos (Almeirim), no Museu Grão Vasco (Viseu) e em diversas colecções particulares. Para além da aguarela, dedicou-se à cerâmica, realizando painéis azulejares que se encontram espalhados por vários pontos do país: Estações da CP de Estremoz, Rio Tinto e Vilar Formoso, bem como as salas de espera da Estação Fluvial de Sul e Sueste e a entrada do Governo Civil, em Lisboa.

A fachada da Estação da CP de Estremoz. 
A gare da Estação da CP de Estremoz, vista do lado de Vila Viçosa.  
A gare da Estação da CP de Estremoz, vista do lado de Évora.  
Ceifeiras. Ao fundo o Castelo de Estremoz. 
Porqueiro guardando uma vara de porcos.
 Mercado de sábado: os barros. 
Convento das Maltesas e zona do mercado das sementes,
no decurso do mercado de sábado. 
 Convento das Maltesas e zona dos churriões-tabernas,
no decurso do mercado de sábado.
Carros de tracção animal, à saída das Portas de Santo António. 
Carro de tracção animal, frente à fonte de São João de Deus,
situada no alçado lateral esquerdo do  Hospital Real de São João de Deus.
 Fonte das Bicas e aguadeiros no Largo General Graça.  
  Fonte do Largo do Espírito Santo e aguadeiro.
Aguadeiro na subida da rua do arco de Santarém, em direcção ao Castelo.