quinta-feira, 25 de maio de 2017

O Dia da Espiga (2ª edição)

Esta é a 2ª edição do post, cuja 1ª edição, datada de 6 de Março de 2010, foi agora ampliada com diversas referências de literatura oral: adagiário português (4), superstições populares (6) e cancioneiro popular (1). Foram igualmente adicionadas, novas fontes bibliográficas (3).

Bilhete-postal ilustrado dos anos 20 do século XIX,
reproduzindo ilustração de A. Rey Colaço.

De acordo com o calendário litúrgico cristão, na Quinta-Feira de Ascensão comemora-se a ascensão de Cristo Salvador ao Céu, após ter sido crucificado e ter ressuscitado. Esta data móvel encerra um ciclo de quarenta dias após a Páscoa. Lá diz o adágio: "Da Páscoa à Ascensão, 40 dias vão."
Na Quinta-Feira de Ascensão celebra-se igualmente o Dia da Espiga. Era tradição e igualmente superstição [2], as pessoas irem para o campo neste dia, para apanhar a espiga de trigo e outras plantas e flores silvestres. Faziam um ramo que incluía pés de trigo e/ou centeio, cevada, aveia, um ramo florido de oliveira, papoilas e margaridas.
O ramo tinha um valor simbólico. Simbolizava a fecundidade da terra e a alegria de viver. As espigas simbolizavam o pão e a abundância, as papoilas o amor e a vida, o ramo de oliveira a paz e as margaridas o ouro, a prata e o dinheiro.
Nalguns locais, o ritual da colheita da espiga era muito preciso. Na 5ª Feira de Ascensão, devia ir-se ao campo, do meio-dia para a uma hora, colher flores de oliveira, espigas de trigo e flores amarelas e brancas, tudo em número de cinco. Deviam rezar-se igualmente cinco Padres-Nossos, cinco Ave Marias e cinco Gloria Patres, para que durante o ano, houvesse sempre em casa, azeite, ouro e prata. [6]
De acordo com a tradição, o ramo devia ser pendurado dentro de casa, na parede da cozinha ou da sala, aí se conservando durante um ano, até ser substituído pelo ramo do ano seguinte. Havia a crença que o ramo funcionava como um poderoso amuleto que trazia a abundância, a alegria, a saúde e a sorte. Lá diz o adágio: "Quem tem trigo da Ascensão, todo o ano terá pão." E porquê? Porque se acredita naquilo que diz o cancioneiro popular alentejano:

"Tudo vai colher ao campo
Quinta-feira d'Ascensão,
trigo, papoila, oliveira.
p'ra que Deus dê paz e pão." [4]

"Quinta-feira de Ascensão
As flores têm virtudes,
Quis amar teu coração,
Fiz empenho mas não pude." (Évora) [3]

Estava de resto, arreigada a superstição de que era bom colher certas flores e plantas medicinais na Quinta-Feira de Ascensão, antes do nascer do Sol. [2] Existia igualmente a crença de que os ovos postos pelas galinhas, entre o meio-dia e a uma hora da Quinta-Feira de Ascensão, nunca apodrecem e têm a virtude de curar doenças e suprimir dores. [2] Acreditava-se também que o queijo feito na Quinta-Feira de Ascensão era medicamento eficaz contra as sezões. [1] Existia ainda o convencimento de que o vento que na Quinta-feira de Ascensão, soprasse à uma hora da tarde, era o que sopraria durante todo o ano. Existia finalmente a convicção de que era bom comer carne na Quinta-Feira de Ascensão, de acordo com adágio:

“Em Quinta-Feira de Ascensão,
Quem não come carne
Não tem coração;
Ou de ave de pena,
Ou de rês pequena.” [2]

A origem festiva do Dia da Espiga, coincidente com a Quinta-Feira da Ascensão, é muito anterior à era cristã. Na verdade, este dia é um sucessor claro de rituais pagãos, praticados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais de cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza. Neles se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, bem como a esperança nas novas colheitas. O Dia da Espiga era assim como que uma bênção aos primeiros frutos e marcava o início da época das colheitas.
A Igreja, à semelhança do que fez com outras ancestrais festas pagãs, cristianizou o Dia da Espiga. A data atravessa assim os tempos com uma dupla significação:
- como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias;
- como Dia da Espiga, traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.

Bilhete-postal ilustrado do 2º quartel do século XIX, edição A.V.L. (Lisboa),
reproduzindo aguarela de Alfredo Moraes (1872-1971).

Actualmente poucas são as pessoas que ainda se deslocam ao campo na Quinta-Feira da Ascensão para apanhar o ramo da espiga. Mas aquelas que vão, têm dificuldade em constituir o ramo, sobretudo pela dificuldade em recolher pés de cereal, raros a partir do momento em que os nossos agricultores receberam dinheiro de Bruxelas para deixar de cultivar. Apesar de tudo, há quem consiga cumprir a tradição. E há também quem faça negócio com a tradição, colhendo e vendendo ramos de espiga na cidade. Apesar do mercantilismo deste biscate em tempo de crise, é um contributo para a preservação da tradição. Actualmente, também são poucas as pessoas que se deslocam à Igreja para participar nos deveres religiosos inerentes à data. Todavia, houve tempos em que a data, das mais festivas do ano, era repleta de cerimónias sagradas e profanas, que chegavam a implicar a paralisação laboral. Existia mesmo a crença que em Quinta-Feira de Ascensão, os passarinhos não vão aos ninhos. [1] Daí também o adágio: “No Dia da Ascensão nem os passarinhos bolem nos ninhos”, o que está de acordo com o cancioneiro popular:

“Se os passarinhos soubessem
Quando é dia d'Ascensão,
Nem subiam ao seu ninho,
Nem punham o pé no chão.” [5]

Existia igualmente a crença de que na Quinta-Feira de Ascensão, os pássaros não iam ao ninho desde o meio-dia até à uma hora, que era o período de orações nas festas da Igreja. Consta, que antigamente, finalizadas essas orações, era costume soltarem-se passarinhos do coro e das tribunas, e espargirem-se flores desfolhadas sobre os fiéis. [6]
Por vezes chove na Quinta-feira de Ascensão, o que originou a convicção de que em chovendo na tarde de Quinta-Feira de Ascensão, as nozes apodrecem e os frutos sairão pecos. [6] O adagiário, regista, de resto a crença de que “Água d'Ascensão, tira o vinho e dá o pão”, assim como “Chuvinha da Ascensão, dá palhinha e dá pão” e também “Quinta-feira da Ascensão, coalha a amêndoa e o pinhão”.

BIBLIOGRAFIA
[1] - CHAVES, Luís. Páginas Folclóricas - I : A Canção do Trabalho. Separata do vol. XXVI da "Revista Lusitana". Imprensa Portuguesa. Porto, 1927.
[2] - CONSIGLIERI PEDROSO, "Superstições Populares”, “O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Leite. Cancioneiro Popular Português, vol. III. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra, 1983.
[4] – SANTOS, Vítor. Cancioneiro Alentejano - Poesia Popular. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[5] - THOMAZ PIRES, A. Cantos Populares Portugueses, vol. I. Typographia Progesso. Elvas, 1902.
[6] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

sábado, 20 de maio de 2017

A importância de comemorar Abril


ESTREMOZ – 26 de ABRIL DE 1974 - Apoteose na recepção ao esquadrão do RC3
que participou nas operações militares do 25 de Abril de 1974.

Comemorar o 25 de Abril é renegar 48 anos de ditadura fascista.
Comemorar o 25 de Abril é festejar a liberdade reconquistada.
Comemorar o 25 de Abril é homenagear todos aqueles que através de múltiplas formas de luta, souberam resistir e dizer não.
Comemorar o 25 de Abril é mostrar reconhecimento ao glorioso Movimento das Forças Armadas, por em boa hora ter desencadeado um golpe militar que derrubou o regime opressor, há 48 anos no poder.
Comemorar o 25 de Abril é importante porque tem uma dupla função pedagógica. Por um lado, mostrar aos mais novos como era Portugal antes do 25 de Abril. Por outro lado, levá-los a compreender que o 25 de Abril foi um marco importante e insubstituível na luta pela cidadania, cuja prática não seria hoje possível sem ele.
Comemorar o 25 de Abril permite avivar memórias, o que não interessa a alguns que não estariam onde estão, se não fosse o 25 de Abril. Fogem às Comemorações do 25 de Abril, tal como o diabo foge da cruz. É que a realização de cerimónias públicas, nomeadamente a realização de sessões de assembleias municipais ou de freguesias, faculta aos respectivos membros o exercício dos direitos de cidadania. Através deles a oposição tem toda a legitimidade de questionar opções tomadas e apontar outros caminhos. Mas isso não lhes interessa. Não gostam de canto polifónico. São monocórdicos e cantam a uma só voz. Não se identificam com as práticas de cidadania, nomeadamente o recurso ao princípio do contraditório. Julgam que ainda estamos no Tempo da Outra Senhora. Há que lhes mostrar que não. Que não é assim.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Museu Municipal de Estremoz - Exposição de Sílvia Lézico



De 15 de Abril a 11 de Junho de 2017, na sala de exposições temporárias do Museu Municipal de Estremoz, estará patente ao público a Exposição “Quem tem vagar, faz colheres: Arte Pastoril, Ilustração e Design” de Sílvia Lézico.
No certame estão expostas cerca de 20 peças de autor, inspiradas na arte pastoril, conceito que convém explicitar.
Em tempos não muito longínquos, o dia-a-dia do pastor alentejano decorria ao ar livre, no meio de permanente e incomensurável solidão. Daí que ocupasse o tempo que lhe sobrava da guarda do rebanho, criando artefactos conhecidos genericamente por “arte pastoril”, os quais eram confeccionados com os materiais correntes na região: cortiça, corno, cana, bunho e madeira. A multiplicidade de trabalhos executados incluía as colheres, o que está na origem do adágio “Quem não tem que fazer, faz colheres” ou da variante “Quem tem vagar, faz colheres”, que deu o título à exposição.
Sílvia Lézico, designer e ilustradora, desde 2012 que tem desenvolvido um trabalho que passa pelo cruzamento do design e da ilustração com a arte pastoril. É esse trabalho que vem agora a público, o que tem desde logo duas consequências importantes. Por um lado, reacende e resgata tradições ancestrais, olvidadas pela malha do tempo e com isso valoriza a cultura popular e a identidade cultural alentejana. Por outro lado, reinventa objectos que desencadeiam eles próprios a sua própria memória futura.

Hernâni Matos

As fotografias seguintes foram recolhidas do Facebook do Município de Estremoz

 
 
 
  
 

sábado, 22 de abril de 2017

A identidade cultural alentejana


A ceifa no Alentejo
Alberto de Sousa (1880-1961)
Aguarela sobre papel (14 x 20 cm)

A quem não me conhece, permitam-me que me apresente. Sou o Hernâni, natural de Estremoz, terra de barro, esse mesmo barro com que Deus terá moldado o primeiro homem.
Com os pés bem assentes na sólida e vasta planície de Além-Tejo, sinto-me em absoluto sincronismo espiritual com a paisagem que um Silva Porto, um D. Carlos de Bragança ou um Dordio Gomes, tão bem souberam cromaticamente fixar na tela.
De igual modo, um Conde de Monsaraz, uma Florbela Espanca ou um Manuel da Fonseca, registaram poeticamente em vibrantes estrofes, a matriz da nossa natureza ancestral.
Também um Fialho de Almeida, um Manuel Ribeiro ou um Antunes da Silva magistralmente perpetuaram na prosa, o colorido policromático e multifacetado da nossa etnografia, a dureza da nossa labuta, a firmeza do nosso querer, o calor do nosso sentir, a razão das nossas revoltas ancestrais, os marcos das nossas lutas e as mensagens implícitas nas nossas esperanças.
Telas, versos e prosa que são sinestesias que fazem vibrar os nossos cinco sentidos.
O azul límpido do céu, o castanho da terra de barro, a cor de fogo do Sol e o verde seco da copa dos sobreirais, constituem uma paleta de cores, trespassada por uma claridade que quase nos cega e é companheira inseparável do calor que nos esmaga o peito, queima as entranhas e encortiça a boca.
Sonoridades do restolho seco que quebramos debaixo dos pés, sonoridades das searas e dos montados, sonoridades dos rebanhos que ao entardecer regressam aos redis, mas sonoridades também na ausência de sons por não correr o mais leve sopro de aragem.
Odores das flores de esteva, de poejo e de orégãos, mas também do barro húmido, do azeite com que temperamos divinamente a comida e do vinho espesso e aveludado, que mastigamos nos nossos rituais gastronómicos.
São estas profundas marcas, gravadas atavicamente a fogo na alma alentejana, que fazem com que eu seja, não por opção, mas por nascimento, um homem do Sul e um alentejano dos barros de Estremoz.
Sinto o Alentejo com emoção e a dimensão regional das minhas emoções tem a ver com a identidade cultural do povo alentejano, forjada e caldeada em condições adversas. Vejamos em rápidas pinceladas, o que é isso da identidade cultural do povo alentejano.
Em primeiro lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a paisagem, que para Eduardo Teófilo em "Alentejo não tem sombra" é um: 
“Plaino imenso, extensão sem fim a perder-se, lá, onde a vista mais não alcança, mar dourado ondulando de leve, num amarelo forte que se vai esbatendo pouco a pouco à medida que a extensão se esquece e acaba. Céu azul, baço, abóbada afogueada por sobre a seara madura, pare­cendo pousada mesmo sobre nós, Sol que não se pode olhar que o reflexo do seu disco brilhante cega e dói.
Não há uma sombra, não se vê viv'alma. O mundo parou, a vida parou, como que hipnotizados pela salva res­plandecente do Sol a pino, bem na vertical”. 
Em segundo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o carácter do povo alentejano, sobre o qual nos diz Vítor Santos no seu "Cancioneiro Alentejano": 
“Independentes, ousados, alegres embora de feições duras e escurecidas pelo sol, eles mostram bem, pelo espírito decidido e olhar sobranceiro e um tudo-nada desconfiado, que possúem a consciência da sua força e do seu valôr”.
 Faz parte ainda do carácter do povo alentejano, o amor desmesurado que nutre pela sua terra. Como nos diz Antunes da Silva em "Terra do nosso pão": 
“Isto de Alentejanos é gente que puxa para uma banda só. Partir à aventura no rasto da fortuna, caindo aqui, levantando-se além, não é caminho que se abra às vozes da alma dos Alen­tejanos. Nem é o susto de outras paisagens vir­gens para onde os mandam, mas o amor sub­merso que têm ao seu chão e que de repente se ergue como uma força do sangue. Teimosamente agarrados à plenitude dos escampados, ao valor das suas vilas e aldeias, aprendem a ser livres com a natureza que lhes legaram seus avós.”
Em terceiro lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o trajo popular. Diz-nos Luís Chaves em "A Arte Popular – Aspectos do Problema": 
“O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe; e tudo que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção dos tecidos, até a côr e a forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está”. O trajo alentejano é rico e diversificado, quer seja usado por homem ou mulher, estando em relação directa com a posição de cada um na escala social e com as tarefas diárias desempenhadas.
Em quarto lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a gastronomia. O Alentejo é a região do borrego e este é um recurso com elevada cotação na bolsa de valores gastronómicos. Por isso, no âmbito da FIAPE – Feira Internacional Agro-Pecuária de Estremoz, decorre a Semana Gastronómica do Borrego, onde o borrego impera como rei e senhor. Então, os restaurantes locais apresentam receitas a Concurso, todas confeccionadas a partir do borrego. Eis algumas: sopa da panela, ensopado de borrego, borrego guisado com ervilhas, mãozinhas de borrego panadas, perna de borrego trufada, cozido de borrego com grão, feijão verde e abóbora, mãozinhas de borrego com molho de tomate, borrego assado à alentejana, sarrapatel de borrego, borrego de alfitete, miolos de borrego, iscas de fígado de borrego, arroz de fressura, empadas de borrego, tarte de requeijão, bolo de requeijão e queijadas.
Qualquer destes pratos é definidor da nossa identidade cultural. A gastronomia do borrego, essa é património culinário legado pelos nossos ancestrais. É património para mastigar, para saborear e para lamber os beiços, a comer e a chorar por mais, pois barriga vazia não conhece alegrias... Por isso, apetece dizer: - Viva o património mastigável! - Viva! - Avante com a defesa do património! - Avante!
Em quinto lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a arte popular. Desde tempos imemoriais que o pastor alentejano ocupa o tempo que lhe sobra da guarda do rebanho, em gravar desenhos sobre madeira, cortiça ou chifre. Resumidamente referiremos: garfos, colheres, chavões, foicinheiras, esfolhadores, formas de dobar linhas, cabaças, caixas de costura, polvorinhos, cornas, etc. Naturalmente, que na arte popular e muito para além da arte pastoril, há a incluir entre inúmeras outras formas de arte popular, a barrística popular e a olaria.
Diz-nos Virgílio Correia na "Etnografia Artística": 
"A Província do Alentejo é a lareira onde arde mais vivo, mais claro e mais alto, o fogo tradicional da arte popular portuguesa.” 
Já João Falcato no "Elucidário do Alentejo" diz-nos que: 
“Não sabe uma letra o pastor destas terras, em erudição nunca ouviu falar, e é poesia pura a linguagem da sua alma, e é poesia pura o que sai das suas mãos.
E além de tudo mais uma qualidade tem a sua poesia. Não precisa dos livros para se imortalizar. Um raminho de buxo, um nada de cortiça, e, da inspiração fugidia, ficou alguma coisa nas nossas mãos. "

Em sexto-lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o cancioneiro popular. De facto, têm bastante expressão entre nós os poetas populares, muitos dos quais são pastores que criam, sobretudo, décimas e quadras que registam no livro vivo da sua memória. A quadra, essa pode ser brejeira: 

 Assente-se aqui, menina,
À sombra do meu chapéu,
O Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do céu.


Pode ser também o reflexo do grande isolamento em que vive o pastor, que lhe permite conhecer a natureza que o rodeia, muito em particular, o céu:

As árves que o mundo tem
Cubro-as c’o meu chapéu.
Diga-me cá por cantigas
Quantas ‘strelas há no céu?


Por vezes a poesia encerra uma profunda crítica social:

Sobe o rei no alto trono,
Desce o pastor ao val’ fundo;
Uns p’ra baixo, outros p’ra cima
Vai-se assim movendo o mundo."


Felizmente que através dos tempos tem havido estudiosos que têm procedido à recolha do rico Cancioneiro Popular. Registo entre outros os nomes de Tomás Pires, Luís Chaves, Azinhal Abelho, Manuel Joaquim Delgado, Vítor Santos, Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti, a quem presto o tributo do meu reconhecimento por terem tido a clarividência da importância que constitui o registo escrito do Cancioneiro Popular, como forma de assegurar a perpetuidade do que tem de mais rico e genuíno a nossa memória colectiva.
Em sétimo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o cante, que segundo a tese litúrgica do padre António Marvão teve origem em escolas de canto popular fundadas em Serpa, por monges paulistas do Convento da Serra d’Ossa, os quais tinham formação em canto polifónico.
No "Cancioneiro Alentejano" – recolha de Victor Santos, diz Fernando Lopes Graça: 
“O alentejano canta com verdadeira paixão e todas as ocasiões lhe são boas para dar largas ao seu lirismo ingénito. Não há trabalho, folga, festa ou reunião de qualquer espécie, sem um rosário infindo de cantigas.” 
Manuel Ribeiro na "Lembrança dos Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, Mértola, Vidigueira e Vila Verde de Ficalho", diz-nos: 
“Só no Alentejo há o culto popular do canto. Ali se criou o tipo original do “cantador”. Pelas esquinas, altas horas, embuçados nas fartas mantas, agrupam-se os homens: esmorece a conversa, faz-se silencio e de subito, expontâneamente, rompe um coral. É o diálogo em que eles melhor se entendem, é a conversa em que todos estão de acôrdo.
Quem não viu em Beja, em certas ruas lôbregas, em certos recantos que escondem ainda os antros esfumados das adegas pejadas de negras e ciclopicas talhas mouriscas, quem não viu duas bancadas que se defrontam e donde se eleva um canto entoado, solene e soturno, com o quer que seja da salmodia dum côro de monges?”
 

Embora possa cantar só, o alentejano canta sobretudo em coros e esse canto é sério, dolente, compenetrado e mesmo solene, porque o alentejano é lento, comedido e contemplativo, por força do Sol escaldante.
O coro une os alentejanos. Como diz Eduardo Teófilo em "Alentejo não tem sombra": 
“Há, no entanto, a ligá-los a todos, algo de pró­prio, de indefinidamente próprio e que os torna re­conhecíveis em qualquer lugar em que se encontrem.(...). Todos eles estão marcados a fogo, pelo fogo daquele Sol ardente que, mesmo quando mal brilha, entra nas almas e molda os caracteres, todos eles apresentam o seu rosto cortado por navalhadas de vida e tostados pelas ardências do Sol de Verão, como se vivessem todos, realmente, sem uma sombra a que se abrigar.” 
Sobre o cante diz-nos ainda Antunes da Silva em "Terra do nosso pão": 
“As cotovias cantam para o céu, tresnoitadas. Os Alentejanos cantam para os horizontes, sonhando. Dessas duas castas melodias nasce a força de um povo!” 
Em oitavo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a habitação popular, o monte ou a casa de povoado, ambos de planta rectangular e com chaminé aparecendo em ressalto na fachada. Os materiais de construção são a taipa e o tijolo. O telhado é de duas águas, coberto de telhas assentes em ripas. As paredes, reforçadas por vezes com contrafortes, são caiadas de branco. Lá diz o cancioneiro popular:

Nas terras do Alentejo
É tudo tão asseado...
As casas e o coração,
Sempre tudo anda lavado...


Julgo ter ficado sobejamente demonstrado que pela sua paisagem própria, pelo carácter do povo alentejano, pelo trajo popular, pela gastronomia, pela arte popular, pelo cancioneiro popular, pelo cante, pela casa tradicional, o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria.
Como diria o poeta, é preciso, é imperioso, é urgente, que cada um de nós tenha consciência dessa identidade cultural e lute pela sua preservação, valorização e aprofundamento. 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Mestre Mário Lagartinho no acervo do Museu Municipal de Estremoz


 Mestre Mário Lagartinho (1935-2016)

Este o título da exposição que desde o dia 8 de Março e até 3 de Junho, estará patente ao público na Galeria D. Diniz, em Estremoz.
O certame visa ser espaço de homenagem a Mestre Mário Lagartinho (1935-2016), o último oleiro de Estremoz, falecido no passado dia 4 de Setembro. Para tal, dá a conhecer ao público os exemplares de figurado de Estremoz e as peças de olaria por ele criadas e que integram o acervo do Museu Municipal. A exposição pretende também sinalizar o de­saparecimento da arte oleira em Estremoz, já referida no foral afonsino de 1258.
Por iniciativa do Museu Municipal, a obra do Mestre já fora objecto de destaque recente nas exposições: “Mário Lagartinho - Olaria de Estremoz” (2004) e “Motivos decorativos na olaria de Estremoz do século XX” (2013), às quais há que acrescentar  “O vasilhame de barro  de Estremoz” (2012), graças à iniciativa da Associação Filatélica Alentejana.
Sob a epígrafe “MÁRIO LAGARTINHO, O ÚLTIMO OLEIRO DE ESTREMOZ”, tracei o seu perfil biográfico e fiz o seu elogio fúnebre no jornal Brados do Alentejo de 15 de Setembro passado. Também a Assembleia Municipal de Estremoz reunida em sessão ordinária no passado dia 24 de Setembro, por proposta do Grupo do PS aprovou por unanimidade um voto de pesar pelo falecimento do Mestre e recolheu-se num minuto de silêncio em sua Memória.
No E’ e sob o título SALVEMOS A OLARIA”, publiquei artigos em 17 de Novembro passado, 12 de Janeiro e 23 de Fevereiro. Neles e em resumo, dei conta que a olaria estremocense é das mais ricas do mundo, pela variedade morfológica das suas peças e pela diversidade e riqueza da sua decoração, constituindo por isso uma das expressões mais elevadas da nossa identidade cultural local. Nesses artigos também referi que quase sempre a transmissão de saberes oleiros foram transmitidos de pais para filhos e aprendizes. A interrupção desta cadeia é sempre uma tragédia e a olaria estremocense corre o risco de extinção. Igualmente salientei que a preservação da nossa memória colectiva e dos saberes tradicionais exige da parte da comunidade local, um esforço para que tal não aconteça. Não basta a nossa olaria estar musealizada. É preciso que esteja viva.
Tive oportunidade também de chamar a atenção para o facto de estar em curso uma Candidatura do Figurado de Estremoz a Património Cultural da Humanidade, na qual a comunidade local se revê e que tudo indica sairá vencedora. Não faz sentido que paralelamente se deixe extinguir a olaria local, a outra componente da nossa barrística. Temos que dar as mãos e unirmo-nos, para que tal não aconteça.

As fotografias seguintes foram recolhidas do Facebook do Município de Estremoz












segunda-feira, 17 de abril de 2017

José Letras: Até um dia, Amigo!


José Santos Saramago Letras (1942-2017)

Oh, valha-me Deus!” era a proverbial frase com que o Zé Letras me cumprimentava, sempre que me encontrava pela primeira vez em cada dia. A ela respondia de igual modo, passando a usar a mesma fórmula, sempre que o conseguia surpreender de manhã. Era um género de “Estás bom, pá?” entre amigos que não são de cerimónias.
Acontece que aquela expressão começou a ser utilizada em relação a mim e em relação a ele, por outros frequentadores do Café Alentejano, tais como o Condinho, o Badaró, o Mourinha gordo e o Cainó. Vejam lá vocês, o que o Zé arranjou.
Mas passemos adiante e vamos lá ao que interessa. Estou aqui para falar do Zé Letras, que no passado dia 16 de Março bateu a sola e foi para o outro lado, aquele que dizem que é tão bom que nunca ninguém regressou de lá para contar como era.
Zé Letras era o tratamento dado pelos amigos a quem em 1942 foi baptizado com o nome de José Santos Saramago Letras. José, simplesmente José, tal como Maria é simplesmente Maria. Santos mas poucos, já que não era homem de Igreja. Saramago, porque como a planta do mesmo nome, era espontâneo, vertical, resistente e com raízes profundas. Letras, as da quarta classe antiga, servida por uma memória prodigiosa, que todos apreciavam.
O Zé era um de sete filhos dum casal que comeu o pão que o diabo amassou. Cedo saiu de Estremoz para trabalhar na Cintura Industrial de Lisboa, onde participou nas lutas operárias. Através do Sindicato chegou a visitar alguns países dos então amanhãs que cantam. Aposentado, regressou a Estremoz, onde no Mercado das Hortaliças dava apoio a hortelãos e a regateiros.
O Zé tinha uma irmã casada com um primo meu. Talvez por isso nos tenhamos tornado amigos. E essa amizade era tal que vi o Zé chorar por mim. É que recentemente passei seis meses difíceis a andar só com um pé e com duas canadianas. O Zé encontrou-me um dia de manhã e vieram-lhe as lágrimas aos olhos quando me disse:
- É pá, põe-te bom que eu sou teu amigo e a gente precisa de ti!
Foram palavras que nunca vou esquecer e que revelam o carácter do Zé: uma profunda humanidade e uma alma sensível a povoarem o corpo dum homem, por muitos considerado agreste.
Aquela atitude foi contrastante com a de alguém das minhas relações, cujo nome não é para aqui chamado e que não me atrevo a designar por amigo. A (in)pessoa em questão, já não me encontrava há algum tempo, quando me avistou no Mercado das Velharias, só com um pé e apoiado em duas canadianas. Deu-lhe para fugir de mim, tal como o diabo da cruz. Talvez tenha pensado que eu me tivesse tornado indigente e lhe fosse pedir alguma coisa. 
Na qualidade de informante, o Zé facultou-me dados preciosos sobre o Mercado das Hortaliças em Estremoz, nos anos 60 do século passado. Trataram-se de informações que foi respigar ao arsenal de gavetas da sua abastada memória, as quais tive em conta na redacção dum texto sobre esse mercado, no meu livro “Memórias do Tempo da Outra Senhora”. O Zé serviu também de inspiração para a construção do personagem “Zé Tretas”, utilizado nos textos “Auto da calçada proscrita”, “Auto dos pombos promíscuos”, “Auto do arraial de Santo António” e “Auto das beldroegas”, publicados na coluna O FRANCO ATIRADOR, que desde 2014 mantenho ininterruptamente no jornal E, de Estremoz.
O Zé tinha uma grande admiração por Álvaro Cunhal e nas últimas eleições Presidenciais apoiou Sampaio da Nóvoa, com o qual fomos almoçar a Borba, conjuntamente com o Coelho Ribeiro, a Francisca, o Luís Mariano, o Condinho, o Pedro Silva e o Painha. Mais recentemente, admirava a figura de Catarina Martins, com a qual teve oportunidade de falar, quando ela visitou Estremoz no passado dia 25 de Fevereiro.
Ao almoço, o Zé era comensal do Café Alentejano numa extensa mesa colectiva na qual tenho assento às vezes, conjuntamente com outros companheiros: o Franco, o João Valente, o Gonçalo, o Carola, o Dias, o França, o ti Lapão, o Badaró, o Luís, o Amaro e outros. É como que uma fraternidade de dar ao dente e de molhar a goela na altura própria de aconchegar o estômago, quando a jornada da manhã chega ao fim.
No mesmo local, o Zé integrava também a fraternidade dos petiscos, onde têm assento permanente: o Malacão, o Silva, o Isauro, o Pato, o Vítor, o Lopes e o Bimbas, entre outros, bem como o Gonçalves que já lá está, porque se lembrou de partir há dias.
Da próxima vez que me juntar aos comensais, vou propor um brinde à Memória do Zé. Com tinto, pois claro, que era assim que ele acompanhava a carne, o seu prato predilecto.
Ainda há pouco tempo tínhamos falado da Morte, tal como falávamos da Vida. Expressou então a sua vontade de viver, proclamando:
- Espero que marches tu primeiro!
Afinal, o seu desejo não se cumpriu. Coube-lhe partir primeiro, pelo que apenas me é possível despedir dele, dizendo:
- Até um dia, Amigo! 

sábado, 8 de abril de 2017

Poetas em defesa da olaria de Estremoz - 07


Maria de Santa Isabel (1910-1992).
 Pseudónimo literário de Maria Palmira Osório de Castro Sande Meneses e Vasconcellos
Alcaide, poetisa estremocense. OBRA POÉTICA: - Flor de Esteva (1948); - Solidão Maior
(1957); - Terra Ardente (1961); - Fronteira de Bruma (1997); - Poesia Inédita (A editar).

Pucarinhos de barro

Pucarinhos de barro, quem me dera
Sentir, na minha boca, essa frescura
Da vossa água perfumada e pura,
Que me trás o sabor da primavera!

Quanta boca ansiosa vos procura,
Num símbolo de crença e de quiméra
Simples imagem viva, bem sincera,
Dum mundo de ilusões e de ternura!

Meus santos pucarinhos, milagrosos,
Cumprindo as gratas obras do Senhor,
Dando a beber aos lábios sequiosos

Minha boca vos beija com fervor,
Como se, noutros tempos luminosos,
Beijasse ainda o meu primeiro amor!