quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Cozinha dos ganhões

 GANHÃO (Início do séc. XX).
Cliché de Faustino António Martins, Lisboa.

COZINHA DOS GANHÕES (1911).
Herdade das Pinas, de D. Theodoro Rodrigues, Estremoz.

A GANHARIA
Os “ganhões“ eram assalariados agrícolas indiferenciados, que se ocupavam de tarefas como lavras, cavas, desmoitas, eiras, etc., com excepção de mondas, ceifas e gadanhas. A sua actividade está registada no cancioneiro popular:

“Eu sou um ganhão da ribêra,
Da ribêra sou ganhão.
Lavro com dois bois vermelhos
Que fazem tremer o chão. [3]

“Bom arado e bom tomão
Faz’uma bela intanchadura;
Boa junta e bom ganhão
Deitam um rego à d’reitura”. [3]

Numa lavoura existiam duas espécies de ganhões: os de pensão e os rasos. Os primeiros ajustados ao ano, pelo S. Mateus e os segundos por temporada de faina agrícola, ganhando estes menos que aqueles.
O conjunto dos ganhões era designado por “ganharia“ ou “malta“ e tinha por dormitório a chamada “casa da ganharia “ ou “casa da malta“, casa ampla que podia acomodar vinte a trinta homens, em tarimbas improvisadas ao longo das paredes. A casa da ganharia tinha sempre uma lareira espaçosa, onde à noite, os ganhões se sentavam nos burros, bancos improvisados com pernadas de azinheira ou de sobreiro. Aí se enxugavam de eventuais molhas, se aqueciam e conversavam pelo serão fora.
A ganharia tinha como mandante o “abegão“, que só recebia ordens do grande lavrador, que o tinha como seu representante em todas as tarefas agrícolas. Era ele que dava as ordens para começar a trabalhar, comer ou parar e que tratava da acomodação e pagamentos da ganharia. Era ele quem determinava o ritmo de tudo:

“Cá ‘stou á porta da rua,
Sem manta nem cassação;
Oh rapazes, vão lá fora,
Que lá vem o abegão.” [6]

O abegão dava o apoio necessário aos ganhões:

“Corri matos e charnecas,
Eu mais o meu abegão,
Para achar um par d’aivecas
À minha satisfação.” [6]

A condição de abegão era cobiçada pelas raparigas casadoiras:

“Belo monte da Gramicha
Que já não tem abegão
Eu hei de p’ra lá mandar
O amor do meu coração.” [6]

O abegão trabalhava e comia juntamente com os ganhões, mas dormia em casa própria com o “sota“, que era coadjutor e substituto do abegão em tudo que podia e sabia. A condição de sota também era invejada. Daí que estes fossem capazes de dizer às moças:

“Sou sota no taboado,
Na Pina dou-te partido;
Se eu não sou do teu agrado
Diz-me qual é o motivo.” [6]

Algumas gostariam de ter um sota por padrinho de casamento:

“No dia em que eu casar
É que levanto a bandeira,
O meu padrinho há de ser
O sota lá da Padeira.” [5]

AS REFEIÇÕES DA GANHARIA
No monte, as refeições da ganharia tinham lugar na chamada cozinha dos ganhões. Aí se sentavam em burros dispostos ao longo de uma mesa comprida e estreita. A cozinha dispunha igualmente de uma lareira espaçosa onde se podia cozinhar em panelas de ferro.
No Outono, no Inverno e na Primavera, as refeições da ganharia consistiam em almoço (antes do nascer do sol), merenda (ao meio-dia) e ceia (ao anoitecer).
Normalmente o almoço, ao levantar, constava de açorda acompanhada com azeitonas. A merenda, no local de trabalho, consistia em pão e queijo, um para cada homem e pão à descrição. A ceia, ao regressar do trabalho, baseava-se em olha com batatas e hortaliças, condimentadas em dias alternados com toucinho ou azeite. No dias de azeite, cada homem recebia meio queijo e azeitonas.
No Verão, as refeições da ganharia constavam de almoço (às sete da manhã), jantar (ao meio-dia) e merenda ou ceia, conforme se comia respectivamente ao sol-posto ou à noite. O almoço constava de sopas de cebola acompanhadas com azeitonas e meio queijo por cabeça.

“Triste vida a dum ganhão
agarrado ao rabanejo,
de manhã é calatrão [a]
ao meio dia pão e queijo.” [7]

O jantar consistia em olha de legumes com toucinho e morcela ou badana. A merenda ou ceia compunha-se de gaspacho acompanhado com azeitonas e meio queijo por homem. Em vez do gaspacho também podiam ser batatas cozidas temperadas com azeite e vinagre.
A mesa da cozinha dos ganhões era posta pelo abegão e pelo sota, que se sentavam cada um à sua cabeceira da mesa. A entrada dos ganhões na cozinha só se verificava depois do abegão ter bradado para o exterior: “Ao almoço!”, ”À ceia!” ou “Ao jantar!”, conforme a refeição de que se tratava. A malta acudia logo à chamada, tirava o chapéu e sentava-se à mesa sempre no mesmo lugar. O que era para comer já tinha sido previamente vazado pelo abegão e pelo sota, em grandes alguidares, conhecidos por “barranhões”. Só faltava migar as sopas de pão, o que cada um fazia puxando da navalha que trazia consigo. Lá diz o adagiário: "Sopa de ganhão, cada três um pão."
Amolecidas as sopas, o abegão dava ordem de comer, soltando um “Com Jesus!”. De cada barranhão comiam quatro a seis ganhões, cada um dos quais metia sempre a colher no mesmo local do barranhão, já que "Não há guerra de mais aparato que muitas mãos no mesmo prato."
O abegão e o sota comiam cada um deles em sua tigela, mais pequena que o barranhão e que era unicamente para cada um deles.
"A hora de comer é a da fome" e por isso, as refeições corriam sem pressas, em silêncio e ordeiramente, com cada um concentrado no acto de comer, já que "Quem não é para comer não é para trabalhar."
Durante as refeições, se alguém precisava de pedir qualquer coisa, batia com a navalha na mesa. Se alguém batesse no barranhão era para pedir a rodilha para se limpar.
Quando todos tinham deixado de comer, o abegão punha-se imediatamente de pé, o que correspondia a dar ordem de retirar, o que cada um fazia, voltando a pôr o chapéu na cabeça. No exterior ou na casa da malta era então chegada a altura dos fumadores puxarem da onça de tabaco e do livro de papel, para enrolarem um cigarro que acenderiam com fuzil e isca:

“O regalo do ganhão
É comer em prato cheio,
Beber vinho, se lh’o dão,
Fumar do tabaco alheio.” [6]

No início do século passado, ainda persistia o costume de no final da refeição, o abegão juntar as mãos e dizer “Demos graças a Deus.” A malta punha então as mãos e pelo menos aparentemente, todos rezavam e só deixavam de o fazer, quando o abegão se benzia, dizendo: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”. Nessa altura benziam-se e só depois se retiravam.

A CONDIÇÃO DE GANHÃO
A vida de ganhão era uma vida dura e humilde, saída em sina a homens robustos, com escassa possibilidade de, por mérito próprio, conseguirem ascender à condição de sota ou de abegão. Daí o pendor negativo do pensamento de alguns deles:

“Por me ver’s de pau e manta
Não cuides que sou pastor,
Sou um pobre ganhão
Do conde de Vila-Flor.” [6]

“Triste vida a de um ganhão,
Andar sempre a trabalhar!
Dá-lhe Deus uma doença,
Vai morrer ao Hospita!” [6]

Alguns queixavam-se dos pais das moças em idade de casar:

“Já não há quem queira dar
Uma filha a um ganhão.
Pensam que lhe há de vir
Das ilhas um capitão…” [3]

Outros desiludiam as próprias moças:

“Tenho vida de ganhão,
Não te posso assistir:
De dia ganho o meu pão,
De noite quero dormir.” [3]

Todavia, alguns tinham consciência de classe, que se traduzia em profunda crítica social:

“Mais vale um ganhão
Todo roto e esfrangalhado,
Que valem trinta pandilhas
Dos que usam marrafa ao lado.” [3]

“Mais vale um ganhão
Sem manta nem nada,
Que trinta peraltas
De bota engraxada.” [7]

E que pensavam as moças casadoiras? Nem todas pensariam o mesmo. Umas diziam que:

“Eu não quero amor ganhão,
Que não quero ser ganhoa,
Quero o amor hortelão,
Que eu quero ser horteloa.” [6]

Algumas iam mesmo mais longe.

“Ò moças não queiram
casar com ganhões,
não ganham avondo [b]
p’ra comprar botões.” [7]

Porém, outras tinham opinião contrária:

“Todas me lavam a cara,
Do meu amor ser ganhão:
É bonito, eu gosto dele,
É honrado e ganha pão.” [6]

Algumas lamentavam-se da sua sina:

“Eu nasci num berço d’oiro,
Quem havia de dizer
Que nos braços d’um ganhão
Havia de vir morrer!” [6]

O que é um facto, é que a avaliação predominante, não era favorável aos ganhões:

“Quem tiver filhas bonitas,
Não as deixe ir a funções,
Que são rodilhas de todos,
Onde se limpam ganhões.” [6]

Já que “Todo o preto tem o seu dia”, anualmente o ponto alto da vida de um ganhão era a ida às Festas do S. Mateus, a Elvas:

”Ó feira de S. Matheus,
Onde as ganharias vão
A gastarem o dinheiro
Da temporada do v’rão.”


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[a] - Sopas de cebola.
[b] - O bastante.


BIBLIOGRAFIA
[1] – CAPELA E SILVA, J. A. A linguagem rústica no concelho de Elvas. Revista de Portugal. Lisboa, 1947.
[2] – CAPELA E SILVA, J. A . Ganharias. Imprensa Baroeth. Lisboa, 1939.
[3] - LEITE DE VASCONCELLOS, J. Cancioneiro Popular Português, vol. I, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1971.
[4] – PICÃO, José da Silva. Através dos Campos (2ªed.). Neogravura, Limitada. Lisboa, 1941.
[5] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. III. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[6] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[7] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.
[8] – VIEIRA DE SÁ, Mário. O Alemtejo. J. Rodrigues e C.ª. Lisboa, 1911.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Cancioneiro popular do pão


Mário Costa (n. 1902?), ilustração para a capa do relatório
comemorativo do XX Aniversário da Campanha do Trigo,
1929-1949, da Federação Nacional dos Produtores de
Trigo (F.N.P.T.). 1949.

Nós alentejanos somos pãezeiros, já que gostamos de comer tudo com pão. Daí que seja natural que no cancioneiro popular alentejano, existam múltiplas alusões ao pão. Seleccionámos, sistematizámos e estudámos algumas dessas referências.
Antes da integração na Comunidade Económica Europeia em 1986, o Alentejo estava coberto de extensas searas de trigo, as quais, quando amadurecidas, lembravam mares de ouro:

“Não há coisa mais bonita
que o torrão alentejano,
onde a seara bendita
dá pão para todo o ano.“ [5]

O Alentejo era admirado por ser produtor de trigo:

“Ai Alentejo, que amuo
o meu por não ser capaz
de ser rico como tu:
para dar o pão que tu dás.“ [5]

O Alentejo foi considerado o celeiro de Portugal e havia quem defendesse que o pão devia ser repartido com equidade:

“Pão nosso de cada dia,
repartido por igual.
Bendito o meu Alentejo,
celeiro de Portugal.“ [5]

Outros advogavam que o pão devia ser repartido pelos pobres:

“Pão nosso de cada dia
pelos pobres repartido…
Bendito o meu Alentejo
que é celeiro bem provido!“ [5]

O reconhecimento de que a terra dava pão, aconselhava a não semear em terra alheia:

“A terra é nossa mãe
pois a terra nos dá pão,
não semeies terra alheia
em busca de produção.“ [5]

Persiste ainda a ideia generalizada de que não há pão, como o pão alentejano:

“Não há coisa mais bonita
que do Alentejo o torrão,
nem há graça infinita
que se iguale à do seu pão.“ [5]

Por ali se colher o trigo, o Alentejo era considerado terra abençoada:

“Alentejo, mouro de antanho,
que um português fez cristão,
és a terra abençoada
de onde o País colhe o pão.“ [5]

Numa perspectiva religiosa, relativa ao pão, o Alentejo era o altar de uma igreja, que era Portugal:

“Ó pão que o corpo deseja,
e a alma quando a rezar,
tens a pátria por igreja
e o Alentejo por altar.“ [5]

Ainda numa óptica religiosa, as espigas das searas eram equiparadas a mãos em atitude de prece:

“Alentejo, terra rasa,
toda coberta de pão;
as tuas espigas douradas
lembram mãos em oração.“ [5]

Igualmente sob um ponto de vista religioso, o pão era abençoado por Jesus:

“Esse pequenino grão
em espiga transformado,
depois de sofrer é pão
por Jesus abençoado.“ [5]

Reconhecia-se ainda que o pão era utilizado no sacramento da Eucaristia:

“Tens Alentejo a missão
de frutos de oiro gerar,
- Corpo de Deus – feito pão
e Hóstia Santa no Altar.“ [5]

No cancioneiro popular alentejano existem referências específicas ao consumo do pão:

“Com um pão de munição
Que el-rei de Hespanha me dá,
Aqui ‘stou eu toda a noite:
Sentinela alerta está!“ [4]

“Os almocreves d’Abrantes,
Quando andam no caminho:
Bôa carne, bom pão alvo,
Melhor borracha de vinho.“ [4]

“Dae-me pinguinhas de vinho
Com bocadinhos de pão,
Dae-me mais alguma coisa
Para fazear caldeação.
Tu ateimas, eu ateimo,
Verás se assim é ou não.“ [4]

“Já comêmu pão de trigu
Cê mihtura dê cêbáda
Já não há rêclamaçõi
Ehtá toda a gênti calada.“ (Barrancos) [1]

Como é corrente noutros temas, existe algum cancioneiro de natureza humorística, relativo ao pão:

“Minha mãe é padeirinha,
Quando coze faz um bolo,
Quando se zanga comigo,
Bate-me com a pá do forno.“ (Alcáçovas) [2]

“Minha avó era padeira,
Vendia o pão a vintém,
Agora vende uma asneira,
Nem pão, nem dinheiro tem.“ [4]

“Ó meu amor, vae e vem,
Não te delates na praça,
Quem conversa com padeiras
Mollete come de graça.“ [4]

“Minha mãe casou-me em Maio
Minha sogra não tem pão,
Doe-me a barriga com fome,
“Oh! que dor do coração! [4]

O meu amor pequenino,
pequenino, resoluto,
é como o pão do padeiro
que se come sem conduto.“ [5]

“Não há pão como o pão alvo,
Nem carne com o toucinho,
Nem rapaz que valha um frasco
Cheio d’aguardente ou vinho.“ [4]

O ganha-pão de alguns pode até ser divertido:

“A cantar e a bailar
É que o meu bem ganha pão,
De viola a tiracolle
E panderêta na mão.“ [4]

O forno de cozer pão, pode metaforicamente ser usado para lá meter cantigas:

“As cantigas que cantaste,
Meto-as no forno frio;
Tu já não sabes cantar,
Oh! comigo ao desafio.“

“As cantigas que cantaste,
Meto-as no forno quente,
Tu já não sabes cantar,
Diante de tanta gente.” (Tolosa) [3]

Persiste a tradição de na Quinta-Feira de Ascensão (Dia da Espiga), se cumprir o ritual cíclico de recolha de um ramo com valor simbólico, o qual se guarda até ao ano seguinte:

“Tudo vai colher ao campo
Quinta-feira d'Ascensão,
trigo, papoila, oliveira.
p'ra que Deus dê paz e pão.“ [5]

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - LEITE DE VASCONCELLOS, J. Cancioneiro Popular Português, vol. I, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1975.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Etnografia Portuguesa, Vol. VI. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lisboa, 1975.
[4] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[5] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Presépio Alentejano


Presépio Alentejano. Peça da autoria do jovem barrista estremocense, Ricardo Fonseca.

É sabido que pela sua paisagem própria, pelo carácter do povo alentejano, pelo trajo popular, pela gastronomia, pela arte popular, pelo cancioneiro popular, pelo cante, pela casa tradicional, o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria. Esta deve ser transmitida duma forma clara pela genuína arte popular. Começa logo pelos materiais empregues, como é o caso do barro utilizado pelos barristas desta terra de Além Tejo, do termo de Estremoz. Exactamente o mesmo barro, que de acordo com o Génesis, Deus terá usado para modelar o primeiro homem. Barro sobre o qual, António Simões poetizou em 1983:

Barro incerto do presente
Vai moldar-te a mão do povo
Vai dar-te forma diferente
P´ra que sejas barro novo!

É com a magia das mãos, auxiliada por utensílios rudimentares, que os barristas, homens e mulheres do povo, corporizam a imaginária que lhes vai na alma e que decoram com as cores minerais já utilizadas pelos artistas rupestres de Lascaux e Altamira no Paleolítico, mas aqui garridas e alegres, como convém às claridades do Sul.
É o caso do “Presépio Alentejano” do jovem barrista Ricardo Fonseca. Trata-se dum Presépio de três figuras, com a Sagrada Família representada em contexto alentejano.
São José é um barbado pastor que se protege do frio com um chapéu aguadeiro, calças de burel, camisa xadrez de flanela e um capote também de burel, com gola de pele de ovelha. Tem os pés protegidos por botas de atanado, a mão esquerda enfiada no bolso das calças, por causa do frio, enquanto que a direita empunha um cajado, pois o Menino Jesus tem que ser protegido e mais vale prevenir que remediar. Lá diz o rifão: Apanha com o cajado quem se mete onde não é chamado.
O Menino Jesus está deitado em cima das palhinhas contidas num cesto de vime, daqueles que são vulgares no Alentejo e encontra-se coberto por uma mantinha xadrez. Lás diz o rifão: A fome e o frio nunca criaram infante. O Menino parece ser irrequieto, já que tem os pés destapados, o que parece preocupar a Mãe, conforme revela a postura das Suas mãos. Nossa Senhora é representada como uma mulher do povo com avental de trabalho e saia azul até aos pés. Usa lenço florido na cabeça e um xaile sobre as costas e por cima da blusa de flanela florida, uma vez que o frio de Dezembro não é para brincadeiras. Lá diz o rifão: Em Dezembro treme de frio cada membro.
O chão é de laje, rocha xistosa, vulgar na região, usada para atapetar a entrada dos montes e pavimentar o seu interior. A horizontalidade do chão evoca a planura da charneca alentejana.
A contextualização do Presépio é reforçada pela fachada do monte, que está por detrás da Sagrada Família. O telhado é de telha romana e a parede está caiada de branco. Lá diz o cancioneiro popular alentejano:

Nas terras do Alentejo
É tudo tão asseado...
As casas e o coração,
Sempre tudo anda lavado...

Rodapé e ombreira da janela decorada com azul do Ultramar, azul que tem a ver com a identidade cultural alentejana e possui um valor simbólico: o azul exprime o desejo de paz e de calma, próprio dos alentejanos e o azul límpido do céu, característico das claridades do Sul, o que é ainda reforçado pelas várias tonalidades de azul do vestuário de Nossa Senhora.
Curiosa a representação de uma parreira sob o beiral do monte. Na minha opinião, trata-se de uma alegoria à actual importância económica da vinicultura no Alentejo, a qual transformou em vinhas aquilo que em tempos foram campos de semeadura de trigo. Os cachos, esses são de uvas pretas, daquelas com que se produz o vinho tinto e espesso que o alentejano, legítimo herdeiro da cultura báquica mediterrânica, gosta de mastigar nos seus rituais báquicos.
Do exposto se conclui que o “Presépio Alentejano”, de Ricardo Fonseca, é uma bem conseguida peça de genuína arte popular alentejana. Com ela originou uma mudança de paradigma nos presépios, tal como nos anos quarenta do século XX, o conseguiu Mariano da Conceição (1903-1959), através da criação do “Presépio de Trono ou de Altar”, hoje uma peça clássica da barrística popular estremocense. Pela sua enorme beleza e pela matriz identitária que dele irradia, o “Presépio Alentejano” está igualmente condenado a ser uma peça clássica da barrística popular estremocense.
Parabéns Ricardo!  


domingo, 19 de novembro de 2017

Temos carácter. Somos alentejanos!


COSTUMES ALENTEJANOS (1923). Jaime Martins Barata (1899-1970).
Aguarela sobre papel. Museu Grão Vasco (Viseu).      
                                              

À Catarina, minha filha:

Muitos de nós, andamos cansados, pelos mais diversos e respeitáveis motivos. Todavia, a eminência de expulsão dos bofes não é compatível com o verbalismo retórico.
A ameaça de ingresso na zona meã da temperatura a que ferve o ângulo recto, ceifa-nos, quer por baixo, quer por cima. Mas isso, não importa. Somos neo-realistas obstinados, anarco-libertários do rebimba-ó-malho, à prova de combustão, seja ela qual for.
Somos homens e mulheres de sequeiro, que bebemos das raízes que mergulham no barro e no xisto e, quando é necessário, na dureza fria do mármore.
Não abdicamos, nem nos vendemos, nem tão pouco nos rendemos. O nosso lugar, é aqui.
Temos carácter. Somos alentejanos.
Recomendamo-nos!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Bonecos de Estremoz na Academia Portuguesa de História


Selo da taxa de 0,55 €, destinado ao correio azul nacional, pertencente à emissão
“Barros de Portugal”,  posta em circulação pelos Correios de Portugal em 21 de
Abril de 2015. Nele aparecem dois exemplares pertencentes ao núcleo tradicional
do figurado de Estremoz. À direita “O cirurgião” e à esquerda, uma “Primavera”.

Os bonecos de Estremoz serão objecto de uma conferência a apresentar na Academia Academia Portuguesa de História no próximo dia 13 de Novembro. A prelecção estará a cargo do nosso colaborador Hernâni Matos, na qualidade de coleccionador e investigador da barrística popular estremocense. O dissertante abordará o tema “O figurado de Estremoz como Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2017?”. A comunicação integra-se nas VIII Jornadas Nacionais de História e Filatelia, a decorrer a partir das 14 horas, no Palácio dos Lilazes, em Lisboa.
Outras conferências previstas estarão a cargo de: - Guilherme d'Oliveira Martins (Filatelia e o novo conceito de Património Cultural); - João Rui Pita e Ana Leonor Pereira (O património científico nos selos portugueses); - Maria Salomé Pais (O património vegetal - um tesouro a preservar); - Pedro Vaz Pereira (O património cultural português nos postais de correio comemorativos dos 400 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia). 
(Notícia saída no jornal E, de Estremoz, de 2-11-2017)

Hernâni Matos

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Estremoz – Caminhar nem sempre é fácil


No Largo de Santa Catarina, o parque de estacionamento em cima do passeio,
obriga os transeuntes a circular na estrada no sentido de progressão dos veículos.
Fotografia de Francisca de Matos.
Foi o poeta sevilhano António Machado (1875-1939), quem proclamou: “(…) caminhante, não há caminho, / faz-se caminho ao andar. / (…)”. A verdade e a universalidade de tal declaração são compatíveis com o reconhecimento da existência de bons e de maus caminhos. É esse dualismo que é objecto da presente crónica.  
Caminhar é preciso
Caminhar pode constituir um prazer e um modo de manter a boa forma física. Todavia, pode ser também uma obrigação inescapável de quem pretende chegar a determinado local. Neste último caso, caminhar pode ser uma penitência dolorosa ou representar um risco a que involuntariamente se é obrigado.
Da Rua 31 de Janeiro às Portas de Santa Catarina
Na cidade de Estremoz há quem se tenha que dirigir para as escolas do 1º Ciclo, Básica e Secundária, bem como para o Centro de Saúde de Estremoz. A opção de caminho pode passar pela Rua 31 de Janeiro, ladeada de passeios, pelo que após atravessar a multiplicidade de esplanadas aí existentes, entra no Largo de Santa Catarina, que antes da curva tem passeios, tanto de um lado como do outro. A seguir à curva também tem, mas inexplicavelmente o passeio do lado direito, nas traseiras da Messe de Sargentos foi transformado pelo Município num parque de estacionamento. A sua existência é absurda, não só por constituir uma barreira ambiental que obriga os transeuntes a circular na estrada no sentido de progressão dos veículos, bem como pelo facto de ao virar das esquinas, existirem dois parques de estacionamento: um do lado esquerdo (no Largo da Praça de Touros) e outro do lado direito (junto às Portas de Santa Catarina). A meu ver, o Município deveria eliminar este parque de estacionamento e orlar o passeio com mecos impeditivos de estacionamento no local. Seria uma medida que os transeuntes iriam aplaudir.
À saída das Portas de Catarina
No interior das Portas de Santa Catarina, o transeunte dispõe de passeio em qualquer dos lados, o mesmo se passando à saída, em direcção à Praça José Dias Sena.
Quem transita pelo passeio do lado esquerdo em direcção às Escolas do 1º Ciclo e à Escola Básica, fá-lo com segurança, seguindo um percurso que foi bem delineado pelo Município. Já o mesmo não se pode dizer de quem circula pelo passeio do lado direito. Este termina imediatamente antes de um sinal de trânsito que assinala a existência de uma passadeira que atravessa o IP2 e que é utilizada pelos transeuntes que se dirigem para a Escola Secundária. A passadeira dá acesso a um passeio que tem a particularidade de não ser horizontal, uma vez que regista uma inclinação acentuada entre os bordos exterior e interior, o que cria dificuldades de circulação pedonal a pessoas mais idosas ou de mobilidade reduzida.             
Em direcção ao Centro de Saúde
Quando termina o passeio do lado direito do IP2, quem se dirige para o Centro de Saúde de Estremoz, vê-se face a duas opções. Uma é a de entrar no parque de estacionamento em direcção ao Centro de Saúde, o que é péssimo quando chove, dada a natureza térrea do piso. A outra escolha é a de seguir junto aos rails que ladeiam a estrada, seguindo um percurso onde não há passeio, no sentido de progressão do trânsito automóvel. É uma opção arriscada, mas que muitos seguem. Creio que o Município tem um modo de corrigir o absurdo da situação criada. Passa por a valeta do parque de estacionamento ser desviada mais para o interior do mesmo, procedendo de igual modo em relação aos rails que bordejam a estrada, criando condições para que possa ser construído o prolongamento do passeio que foi interrompido junto ao sinal de passadeira. Para chegar ao Centro de Saúde falta atravessar a estrada que liga a Rua de São João de Deus ao IP2 e à Rua Professor Egas Moniz. Para atravessar esta estrada com segurança, haveria que marcar uma passadeira para travessia de peões, mesmo no seu termo, no local onde já existiu sinalização de stop marcada no chão, mas que deveria passar a ser vertical. O fluxo de trânsito automóvel nesta estrada de ligação passaria a ser mais lento, devido à circulação pedonal na passadeira. Todavia, os direitos dos peões sairiam reforçados, o que não deixaria de ser positivo.
As sugestões aqui ficam. Falta agora o Município reconhecer o absurdo das situações aqui apontadas e tomar as medidas concernentes a uma circulação pedestre mais segura.


 Quando termina o passeio do lado direito do IP2, quem se dirige para o Centro de
Saúde ou entra no parque de estacionamento ou segue junto aos rails que ladeiam
a estrada. Fotografia de Francisca de Matos.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Grão a grão, enche a galinha o papo


Miniaturista italiano (c. 1398). Tacuinum Sanitatis, manuscrito
(Codex Vindobonensis S.N. 2644). Tamanho do fólio: 330 x 230 mm.
Biblioteca Nacional Austríaca, Viena.

As eleições autárquicas do passado dia 2 de Outubro deram uma vitória folgada ao MIETZ, o qual elegeu 4 vereadores contra os 3 conseguidos pelo PS. Pese embora a vitória, o Partido do Presidente perdeu um vereador a favor do Partido Socialista.
O MIETZ, partido furta-cores apresentou a sufrágio listas em que figuravam trânsfugas da CDU, do PCP, do PS e do PSD e nas quais era notória a presença de funcionários e assessores do Município. Pelos vistos, o eleitorado gostou, o que conduziu aquele Partido à vitória.
Estratégia eleitoral
Para além de arruadas, a campanha eleitoral do MIETZ assentou no forte impacto de eventos, sobretudo a partir de Maio e dos quais destaco: 
- Inauguração do Parque Industrial de Veiros (25-5); - Apresentação do Projecto Museológico do Museu Berardo de Estremoz, junto ao edifício do Palácio dos Henriques (Palácio Tocha) (4-7): - Anúncio da recuperação das Portas dos Currais e muralha adjacente (6-7); - Divulgação da aquisição de mais uma varredoura pelo Município de Estremoz (11-7); - Anúncio do começo das obras de interligação entre os Casais de Santa Maria e a Urbanização de Mendeiros (18-7); - A aprovação em reunião de Câmara da celebração de um Protocolo entre o Município e a Sociedade Filarmónica Veirense, respeitante à cedência gratuita, pelo prazo de 25 anos, de um imóvel situado na Praça Marquês da Praia e Monforte, em Veiros, visando a realização das obras de reparação necessárias à sua funcionalidade e utilização futura (26-7); - Passagem por Estremoz da Volta a Portugal em Bicicleta (1-8); - Anúncio da conclusão ainda em Agosto das obras de construção do relvado sintético, no campo de futebol do Sporting Clube Arcoense (4-8); - Anúncio das Portas de Évora estarem a ser objecto de recuperação (11-8); - Gala na RTP-1 em que Évora Monte participou no Concurso 7 Maravilhas de Portugal – Aldeias, na categoria Aldeias Monumento (13-8); - Noite de Glamour junto ao Pelourinho (19-8); - Realização da Corrida Comemorativa dos 55 anos de Alternativa do cavaleiro José Maldonado Cortes (1-9); - Reabertura do Museu Rural em novo espaço do Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte (2-9); - Visita à Central Solar de Montes Novos, em São Bento do Ameixial, do Ministro da Economia e do Secretário de Estado da Energia (6-9); - Início da empreitada de “Contenção Periférica e de Fachada do Edifício Luís Campos”, a executar num prazo de 45 dias, pela Eco Demo - Demolições, Ecologia e Construção, S.A., de Leiria (6-9); - Apresentação no Teatro Bernardim Ribeiro da curta-metragem "Farpões Baldios" da estremocense Marta Mateus Cabaço, vencedora do Grande Prémio do Festival de Curtas de Vila do Conde (16-9); - Realização pelo Município e no decurso da campanha eleitoral, de 400 entrevistas para um concurso de atribuição de 80 postos de trabalho; - Manifestação de afectividades a eleitores idosos, a curta distância das assembleias de voto, situadas na Junta de Freguesia de Estremoz (2-10).

À laia de balanço
Muitos gritarão “Aqui-d’el-rei”, argumentando tratar-se de mero eleitoralismo. Todavia, eu que tenho queda para os provérbios, mais não digo que:
- “Grão a grão, enche a galinha o papo”. 

Hernâni Matos